Chef César Santos
Com mais de três décadas à frente do Oficina do Sabor, o chef pernambucano Cesar Santos construiu uma trajetória marcada pela valorização dos ingredientes regionais, reconhecimento nacional e internacional e pelo trabalho de fortalecimento da gastronomia como cultura e instrumento de desenvolvimento.
Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da gastronomia pernambucana e brasileira, Cesar Santos aprendeu que cozinha também se faz de memória. Nascido no Recife, no bairro de Casa Amarela, cresceu acompanhando a mãe, dona Edelvita César, entre receitas e massas de bolo. Ainda adolescente, mudou-se para Olinda, cidade que acabaria se tornando parte indissociável de sua vida pessoal e profissional.
Foi também em Olinda que começou a desenhar a carreira que, décadas depois, faria seu nome atravessar as fronteiras de Pernambuco. Passou por cursos no Senac, estudou Hotelaria e trabalhou em diferentes funções do setor, inclusive como garçom e em cozinhas profissionais. Na década de 1980, ao lado das irmãs Edineide e Gracinha, começou um pequeno negócio de comidas congeladas. A experiência cresceu, chegou aos eventos e banquetes e preparou o caminho para um projeto maior.
Em 19 de novembro de 1992, Cesar abriu as portas do Oficina do Sabor, na Rua do Amparo, no Sítio Histórico de Olinda. O restaurante começou pequeno, com capacidade para cerca de 40 pessoas. Mais de três décadas depois, ampliado e consolidado, continua no mesmo endereço e sob o comando do chef.
Ali, Cesar desenvolveu uma cozinha que ajudou a dar novo lugar a ingredientes profundamente ligados à alimentação pernambucana. Jerimum, macaxeira, carne de sol, frutas, ervas, pescados e outros produtos regionais ganharam novas combinações e técnicas sem perder a ligação com suas origens. Em um período em que a valorização do ingrediente local ainda não ocupava o espaço que tem hoje na gastronomia brasileira, o chef fez dessa escolha uma das marcas de seu trabalho.
Sua cozinha autoral também encontrou identidade na combinação entre frutos do mar, frutas e ervas e na releitura de sabores do Agreste, Sertão e litoral pernambucanos. O resultado projetou o Oficina do Sabor para além de Olinda e ajudou Cesar a construir uma carreira com presença nacional e internacional. Ao longo dos anos, levou sua cozinha a países como Portugal, França, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Emirados Árabes, entre outros destinos.
A trajetória acumula importantes reconhecimentos. Em 1999, Cesar conquistou o primeiro lugar nacional no Chef Talento Sadia, depois de ter figurado entre os finalistas do Nestlé Toque D’Or. O Oficina do Sabor recebeu sucessivas distinções de publicações especializadas, incluindo premiações do Guia Quatro Rodas, Veja Recife Comer & Beber e Prazeres da Mesa. Em 2011, foi escolhido Melhor Restaurante de Cozinha Brasileira no Melhores do Ano da Prazeres da Mesa e, em 2013, voltou a receber reconhecimento nacional na mesma categoria.
Em 2014, Cesar Santos foi eleito Personalidade Gastronômica no Melhores do Ano da Prazeres da Mesa e venceu, na categoria nacional, o Prêmio Dólmã de Gastronomia. No mesmo ano, lançou pela Editora Senac o livro *Cesar Santos Chef*, reunindo receitas e histórias de sua trajetória. Em 2018, recebeu ainda o Prêmio Orgulho de Pernambuco, na categoria Gastronomia, por votação popular.
Sua atuação, entretanto, nunca ficou restrita às panelas do Oficina do Sabor. Cesar assumiu por diferentes períodos a presidência da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, entidade que reúne restaurantes de diferentes regiões brasileiras e trabalha a valorização da diversidade gastronômica do país. Também participou de eventos e projetos dentro e fora do Brasil, ajudando a divulgar a cozinha pernambucana para novos públicos.
Em outro capítulo importante dessa trajetória, nasceu o Instituto Cesar Santos, ampliando um trabalho que o chef já desenvolvia em defesa da gastronomia como patrimônio cultural e ferramenta de transformação econômica e social. A instituição atua na valorização da cozinha pernambucana e brasileira, na formação e troca de conhecimentos, na realização de festivais, cursos, consultorias e aulas-show e na aproximação entre chefs, produtores, empreendedores e comunidades.
Por meio do Instituto, Cesar reforça uma ideia que acompanha toda a sua carreira: a gastronomia não começa no restaurante. Ela passa pelo agricultor, pelo pescador, pelo produtor artesanal, pelos mercados, pelas cozinheiras e cozinheiros e pelas histórias de cada território.
Ao promover capacitações, consultorias, festivais e intercâmbios entre profissionais, Cesar passou a dedicar parte importante de sua experiência à formação de novos talentos e ao fortalecimento de pequenos negócios ligados à alimentação, defendendo a gastronomia como expressão de identidade, geração de renda e desenvolvimento local.
Mais de três décadas depois da abertura do Oficina do Sabor, Cesar Santos permanece ligado ao mesmo princípio que ajudou a construir sua carreira: olhar para Pernambuco antes de olhar para longe. Sua contribuição está tanto nos pratos que criou quanto na defesa de ingredientes, produtores, profissionais e saberes que formam a cozinha do estado.
Da Casa Amarela às ladeiras de Olinda; dos primeiros congelados preparados em família às cozinhas e eventos internacionais; do Oficina do Sabor ao Instituto que leva seu nome, Cesar construiu uma história na qual cozinhar nunca significou apenas servir um prato.
Significou contar de onde ele veio.
E, ao fazer isso, ajudou a levar Pernambuco para a mesa do Brasil e do mundo.